Em todas as minhas andanças pelo interior da vida dividi com as pessoas humildes várias experiências e sabedorias, dentre elas a mais interessante é a que eu vou lhes contar agora.
Um velho padre trabalhava em uma comunidade do interior. Certo dia seus superiores decidiram aposentá-lo por causa da idade, mas ele pensava que a sabedoria construída com a experiência dos longos anos de vida religiosa dedicados àquela comunidade ainda era mais importante do que a necessidade de aposentar um velho padre desejoso de continuar cumprindo sua missão de educar e evangelizar. Em meio aos devaneios e angústias, ele lembrou-se de que ao se ordenar havia feito votos de obediências, então, mesmo contra a sua própria vontade resolveu aceitar a aposentadoria. Era uma tarde de sexta feira quando chegou um jovem padre para substituí-lo.
Padre, eu vim para substituir o senhor, agora vamos cuidar dos atos transitórios, o senhor celebra a missa de domingo e viaja segunda feira. O velho padre disse não filho, se você veio para me substituir, você celebra logo a missa de domingo e vai logo se acostumando com a sua nova missão, e o jovem padre disse: padre o senhor sabe que situações novas causam sempre insegurança e esta leva a erros, para evitar isso o senhor celebra e me apresenta para os fiéis e, a partir da próxima semana eu já estarei acostumado e mais seguro para celebrar, e o velho padre respondeu, filho não se preocupe com isso, se você sentir dificuldades, naquele armário em baixo da escrivaninha na sacristia tem uma garrafa de vinho, tome meia taça.
Domingo, oito horas da manhã a igreja estava cheia de fiéis para conhecer o jovem padre e assistir ao primeiro sermão dele. O velho padre chegou pela porta da frente da igreja e ficou em pé, escorado na porta. Começou a missa, os fiéis oravam e cantavam com alegria. Chegou a hora do sermão, o jovem padre começou a homilia e os fiéis começaram a se retirar de um a um até que a igreja ficou completamente vazia, o jovem padre desceu do altar e foi ter com o velho padre na porta da igreja e disse: padre, pelo amor de Deus me diga quais foram os erros que eu cometi para que eu os corrija a todos. O velho padre respondeu: não se preocupe filho, você só cometeu dois errinhos, o primeiro é que eu mandei você tomar meia taça de vinho, não a garrafa toda como você tomou e, o segundo é que Caim matou Abel com uma “porrada” na cabeça, não com um chute no “culhão” como você disse aí.
Terminado a dialogo, os dois seguiram para a casa paroquial, esta ficava nos fundos da igreja de frente para um pequeno lago em cujas margens havia algumas arvores e um gramado com alguns animais pastando ao sabor da brisa que soprava do lago. No velho trapiche à sombra de uma secular sucupireira, sentados em troncos de madeira, o jovem padre voltou a conversa sobre seus erros durante o sermão, perguntando: então padre, eu sou mesmo um desastrado, só sirvo para fazer besteiras? Ao que recebeu como resposta: não filho, a vida é assim mesmo, as pessoas são propensas ao erro. O livre arbítrio é o divisor entre o ser e o não ser; a prudência é o divisor entre a inteligência e a sabedoria.
— Então padre, quer dizer que aqui está se travando um dialogo entre a sabedoria e a inteligência?
— Eu não diria que sim filho. Apesar de distintas, inteligência e sabedoria não são inimigas. Há, contudo, uma grande diferença entre as ações do inteligente e as ações do sábio, este procura utilizar com racionalidade os conhecimentos produzidos por si e por outrem, enquanto aquele produz muito conhecimento, mas nem sempre os usa com racionalidade. O homem precisa refletir sobre as ações anteriores para corrigir seus erros e assim ordenar as ações futuras e nunca se prestar a apontar os erros dos outros antes de corrigir os seus. Ao falar isso, lembro você filho. Quando você chegou parecia uma pessoa muito inteligente – aliás, os inteligentes têm a solução para tudo sem pensar que nem toda solução satisfaz a todos – mas a inexperiência para conduzir ações que envolvam pessoas diferentes, com sentimentos e anseios diferentes, sempre trará complicações. Ao se relacionar com outras pessoas é necessário que o homem saiba que relações interpessoais não é um jogo de futebol, onde os adversários buscam a todo custo a vitória – o empate é o imprevisto no jogo – aqui o ideal é o empate, pois este indica o equilíbrio entre as pessoas e as pessoas equilibradas estão sempre prontas a ceder para alcançar um resultado equilibrado nas relações interpessoais.
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