Quem observar um fenômeno com uma visão puramente holística tornar-se-á daltônico em relação ao processo, por isso é especialmente difícil compreender o fenômeno educacional sem observar os aspectos lógicos acerca dos princípios fundamentais da Escola e suas implicações sociais. Quem se preocupar em compreender tais questões terá que se debruçar sobre a relação da Escola com a Família e com a Sociedade, e nessa análise compreenderá que a Escola tem duas funções naturais, a saber: uma lógica e outra social. A função social está diretamente ligada ao termo inserção da pessoa ao convívio da sociedade; a função lógica relaciona-se com os princípios fundamentais da sistematização do saber historicamente acumulado – o que chamamos de herança cultural da humanidade –, assim compreende-se que a educação da pessoa começa em casa, passando pela sociedade recebendo a complementação da Escola através do desenvolvimento dos princípios normativos e formais do raciocínio e do poder de argumentação.
Ocorre, porém que ao longo das relações de poder se provocou uma desestruturação gradual da Família a ponto de desqualificá-la para essa função importantíssima de educar seus próprios filhos, ficando tal responsabilidade para a Escola, assim, se observa no interior do recinto escolar que professores são obrigados a deixar de lado as suas funções relacionadas com os princípios lógicos da Escola para se dedicarem às ações que deveriam ser de responsabilidade da Família. A Escola passou então a cuidar da formação do caráter, da higiene, da responsabilidade com a saúde da criança, ensinando-a a escovar os dentes, tomar banho, cortar as unhas, pentear os cabelos, etc., o que ocupa o espaço e o tempo que deveriam ser utilizados para o trato das questões de raciocínio lógico e da argumentação.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais enfatizam a importância dessas ações no que chama de Temas Transversais que, à luz dos meus entendimentos são interessantíssimos para ajudar no desenvolvimento do poder de argumentação da criança quando de sua formação escolarizada, ocorre, porém, que a maioria dos professores faz coro cerrado ao discurso do Sistema de Ensino acerca da priorização dos Temas Transversais como Disciplina. Ora os Temas Transversais não são novidades na Educação Escolarizada, vieram apenas oficializar o que, até antes da promulgação da Lei 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – se chamava de “Currículo Oculto”. Essa visão sistêmica leva ao entendimento da necessidade de formar superprofissionais para lidar com a complexidade dos problemas da Educação, mas a meu ver, essa necessidade é irreal porque não haverá superprofissional que supere os obstáculos interpostos pela desarticulação das ações da Escola com a Família e com a Sociedade, sem que se promova o reordenamento de tais relações redistribuindo as responsabilidades para cada uma das instituições. Dessa forma cada uma cuidando do que lhe compete sobraria tempo para a Escola cuidar da formação do aluno baseada nos princípios normativos e formais do raciocino, assim quando o SAEB viesse fazer a avaliação da aprendizagem infantil a faria dentro de uma peculiar realidade, o que ocorre hoje é completamente inverso, a Escola cuida da formação doméstica do aluno e o SAEB avalia os princípios lógicos.
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